Texto Bíblico: 1 Samuel 8
Tenho tido a possibilidade de pregar fora de meu campo de trabalho e
tenho visto com imensa tristeza um quadro se repetir em diversos lugares – o
drama da rejeição no contexto eclesial/pastoral. Como presidente de presbitério
e de sínodo – que já fui; várias vezes fui convidado a apagar incêndios em
determinadas igrejas devido ao problema da transição pastoral.
Há uma crise no meio pastoral no que diz
respeito a esta realidade!
Com a inserção no ministério de um grande
número de novos pastores, associado ao fato de que não há igual número de
organização de igrejas/comunidades, muitos se sentem ameaçados nos seus postos.
Esta ameaça tem causado insegurança e ciúmes em muitos colegas. Muitos pastores
não estão emocionalmente preparados para ouvirem um “não” a continuidade de
seus trabalhos à frente das suas comunidades.
Uma outra questão a ser considerada é a
maneira como a direção de igrejas (chamados Conselhos) trata da “dispensa”
destes obreiros nos campos. Tratam o assunto sem qualquer compreensão com o ser
humano e revelam um comportamento exclusivamente “empresarial” – descarte da
pessoa sem qualquer consideração. Prática de empresas na atualidade.
Secularismo infiltrado nas igrejas.
O fato é que estes dois elementos estão
provocando estragos imensos em muitas igrejas. Pastores descompensados
emocionalmente manifestam “pitis”, desfazem nos meses finais de um ministério
local, tudo o que lutaram para edificar nos anos anteriores. Não são poucos os
que “racham” a comunidade, levam consigo alguns, iniciam uma nova “congregação”...
Isso para não falar do que acontece emocionalmente aos familiares – revolta,
rebelião e insurreição com a liderança instituída. Os mesmos líderes que foram
usados por Deus para convidarem o tal obreiro para o campo, agora passam a ser vistos como sendo do
Diabo, por não desejarem (por alguns motivos objetivos) a continuidade deste
trabalho!
O
psicólogo Tommaso faz uma abordagem
sob o tema da rejeição e declara: Para
qualquer um, o término de um relacionamento é desagradável. Pessoas
emocionalmente maduras lamentam a perda, mas tocam suas vidas. Pessoas
imaturas, com baixa auto-estima, resistem à perda, reagem a ela como se
perdessem a si mesmas e não ao outro. O amor próprio, que já era
precário é ferido dolorosamente
e o desespero pelo objeto amado traz comportamentos irreconhecíveis. Afinal, é
sua tábua de salvação, o “grande amor de sua vida!”. Lidar com a rejeição não é fácil. Este é um dos
mais terríveis sentimentos experimentados pelo ser humano. Todos, em algum
momento de nossas vidas o vivenciamos em algum grau. Consiste em sentir-se não
querido, não amado, não aceito, preterido, discriminado, humilhado. Provoca sensação
de abandono e de depreciação A rejeição pode ser real ou imaginária. A rejeição
imaginária pode ser tão dolorosa que a rejeição real. Ocorre nos
relacionamentos amorosos, na vida social, familiar ou no trabalho.
Samuel era o grande líder de Israel nos dias
anteriores a monarquia, apesar de sua estirpe espiritual, sucumbiu a este sentimento
de rejeição. Em 1 Samuel 8, lemos a luta de Samuel por permanecer no posto, mas
o povo desejava um rei. Samuel era uma bênção, um homem íntegro, mas o povo
queria um rei. Surge o que lemos acima, o sentimento de depreciação para
consigo mesmo e de revolta pela ingratidão do povo. Há algumas considerações no
texto:
A.
importante lembrar que a coisas mudam com o passar da vida.
Samuel foi envelhecendo diz o texto (v.1). Os
sucessores de Samuel (ou seus auxiliares) não renderam o esperado. O povo
desejava mudança. Ninguém é eterno. O mundo que freqüentamos está se movendo de
maneira acelerada. As mudanças nos últimos 100 anos são maiores que muitos
milênios inteiros em tempos anteriores. Salomão já dizia que há tempo para
tudo. Deus fez as coisas formosas no seu devido tempo. Um grande ministério
pode ser estragado nos seus dias finais pela inabilidade de lidar-se com o
sentimento de rejeição.
B.
Os presbíteros desejaram uma renovação do trabalho.
Nos versos 4 e 5 lemos que os anciãos sentaram
para tratar deste assunto com Samuel. No NT o termo ancião está associado ao de
presbítero. O presbítero é o líder leigo no meio das comunidades cristãs. A
cargo do conselho de presbíteros está a responsabilidade pela liderança
pastoral do povo. O que acontece com muitos pastores hoje, aconteceu com gente
boa no passado. Não é incomum o desejar-se uma nova liderança pastoral.
C.
O grande problema é a aceitação de que o tempo chegou.
Imediatamente o texto diz que Samuel não se
agradou desta postura (v 6). Ninguém gosta de mudança. As mudanças trazem
desassossego, desconforto, trazem insegurança ante o futuro. Mas é preciso ver
a mudança com um olhar especial. Aproveite da mudança para crescer, para
reavaliar e renovar o ministério.
D.
O Conflito entre a pessoa amada e o trabalho descartado
Samuel não conseguia administrar o fato de que
a rejeição de sua liderança não era para com a sua pessoa, mas para com seu
trabalho. O povo amava Samuel, mas não o queria mais à frente do trabalho. Muita
gente sucumbe por não entender isso. Muitos pastores saem de suas comunidades “enfezados”,
murmuram por ingratidão, revelam-se revoltados com famílias e pessoas. Não leve
isso no pessoal, mas entenda que é ministerial. Há pastores que pararam no
tempo, não se reciclaram. Não acompanham as mudanças sociais, as transformações
culturais. Há pastores que nunca se importaram com o ministério. Fizeram dele
sempre um “bico dominical”. De repente o povo quer mais... e eles não tem pra
dar! Tomam isso como ofensa pessoal, ameaçam dividir a congregação... que
tristeza de liderança!
E.
A piedade é fonte de renovação ante as forças da rejeição.
Nosso texto nos alerta que Samuel recorreu a
Deus. Buscou a Deus, orou a Deus. Certamente magoado. Inequivocamente
entristecido com o que ouvira de seus lideres anciãos. Não deve ter sido uma
noite bem dormida. Mas ao buscar a Deus, ao rasgar-se perante o Eterno, Deus
trata de seu coração, apontando que aquela, de fato, era a direção a ser
tomada! Quem muito desfrutou de visibilidade e poder, ter que abdicar do que já
estava acostumado, não é tarefa fácil. Isso ocorre tanto na vida pública,
empresarial e ministerial. Mas distintamente de outros setores, ministério
trata-se de vontade de Deus, de sinalização de Deus. Deus diz pra Samuel que de
fato este era o caminho. Apenas Samuel não estava vendo o que todos viam e que
Deus consentia.
F.
Cuidado com a magoa remanescente.
Alguns comentaristas bíblicos afirmam que os
dois livros de Samuel foram escritos numa clara afronta ao novo sistema que
estava sendo instituído. No primeiro livro de Samuel vemos ataques diretos a
Saul, revelando toda sua descompensação e pecados. No segundo livro, Saul não
estava mais em cena, mas os ataques se seguem contra a monarquia. O alvo era
Davi. No segundo livro temos o relato dos pecados, da tragédia familiar, dos
erros cometidos por Davi. Cremos na inspiração das Escrituras, mas não podemos
negar que a motivação inicial foi a mágoa agasalhada pela rejeição da liderança
do próprio Samuel. Depreciar o outro, não trará de volta o que já se passou. A mágoa
precisa ser tratada para que a vida siga frutífera e abençoada!
Perdoe-me a sinceridade da reflexão. Mas tenho
me preocupado com meus irmãos pastores e conselhos no que tange ao fator
sucessão. Saber lidar com a rejeição é sinal de maturidade. Saber valorizar o
que foi feito para seguir em frente, pode atenuar as arestas no processo de
sucessão!
Obs: Não estou trocando de campo. Esta
reflexão no momento não foi pensando em mim. Mas quem sabe um dia também me
servirá!
Pr Carlos Orlandi