Serie: Ainda que 3

3.  Ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei... (Miquéias 7.8)
O apóstolo Paulo declara: “aquele, pois, que pensa estar em pé veja que não caia” (1 Co 10.12). O drama da tentação é real. Estamos caminhando e sem perceber, tropeçamos e caímos. Cair em tentação... é algo tão terrível que Jesus fez desta expressão parte de sua oração modelar: Pai Nosso – “e não nos deixes cair em tentação...”
Na literatura grega antiga (mitologia) há uma passagem que trata desta realidade: o mito de Ulisses. O herói que venceu a tentação do canto das sereias. Na história mitológica, Ulisses foi o único mortal que tendo ouvido o canto destes seres dos mares e oceanos, não foi por ele destruído. O canto das sereias era enlouquecedor. Os homens se arremetiam em sua direção atraídos para a própria destruição. Não foi assim com Ulisses. Mas nem sempre é assim a realidade da vida de muita gente. Não são poucos os que tendo ouvido o canto da sereia de seus dias caíram e se destruíram por completo.
O grande problema da queda é permanecer caído. O salmista declara:”O Senhor firma os passos do homem bom e no seu caminho se compraz; SE CAIR, não ficará prostrados, porque o Senhor o segura pela mão” (Sl 37.23-24). 
Errar é humano diz o ditado. Biblicamente afirmamos: todos são pecadores. Mas essa é uma verdade confessional, não relacional. Na relação a pessoa que cai é vista como sujeito de segunda categoria, não como um ser humano semelhante a qualquer outro: pecador. As conseqüências da queda existirão na vida daqueles que nela se envolveram, mas o grande problema é que muitas pessoas desejam manter o outro caído, até para tentarem tirar proveito da condição. Só Deus é quem realmente levanta.
Ai diz o texto de maneira clara: “ainda que eu tenha caído, levantar-me-ei”... não ficarei prostrado porque “o Senhor é quem segura pelas mãos”. A graça e a misericórdia divina é que reerguem o caído do monturo. Foi por isso e para isso que Cristo morreu, para rasgar o escrito de dívida que pesava contra o caído, o pecador em seu estado de prostração. As vezes caímos no desânimo, caímos num laço, caímos numa mentira, caímos numa armadilha, caímos no pecado. Jesus orou em favor de Pedro: “Satanás pediu vocês para peneira-los como trigo” (Lc 22.31).
Se o pecado traz a morte, o julgar das pessoas traz condenação, mas a graça do Eterno patrocina contra tudo e todos a restauração. Deus é quem restaura, Deus é quem levanta, Deus é quem anima, Deus é quem trata e socorre.
No livro “Salvos da Perfeição”, Elienai Cabral Jr aborda entre tantas passagens esta realidade que em síntese afirma: “A Biblia não é boa em contar histórias de heróis. Suas histórias de heróis são ruins porque todos os seus heróis fracassaram, cairam (...) É assim com Sansão. Vive sempre com a idéia de que na última hora da um jeito. Na última hora a força não aparece  e ele fracassa. Talvez o fracasso deste herói tenha sido a única forma dele acordar da ficção para voltar a luta da vida”.
A Bíblia está recheada de histórias de gente temente a Deus, como Davi, Jacó, Paulo, Pedro... gente que viveu o drama da tentação e que em meio a sua dor, reaprendeu o valor do amor e da restauração que vem do Senhor.
Deus, que do absoluto fugiu em desespero, que inventara o imperfeito, imperfeito se fez. Inventou-se entre os incertos. Aperfeiçoou a imperfeição. Humanizou-se entre humanos. De tão impreciso, despido das forças do absoluto, igualmente inapreensível, excepcionalmente frágil, tão vivo e tão morto, descortinou o absoluto como quem desnuda o que é mau. Imperfeito, salvou-nos da perfeição!

Carlos Jr