A BONDADE DE DEUS NA CONTRADITORIEDADE DA VIDA


Texto Bíblico: Salmo 73


Introdução:
A vida não é justa!
Esta é uma realidade básica da existência. Esta é uma visão pouco romântica, essencialmente realística – para alguns um tanto pessimista. Deus é justo, a vida não. E no meio da caminhada da vida, nós vamos nos deparando com situações que saltam aos nossos olhos de injustiças. As injustiças nos tocam, nos incomodam e porque não dizer, também – geram crises profundas em cada um de nós.

Martin Luther King – “O que mais me preocupa, não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem-caráter, nem dos sem-ética, o que mais me preocupa é o silêncio dos bons”.

Rui Barbosa declarou algo tremendo: “De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto”.

O que eles declaram é também verdade no coração e na caminhada de um servo de Deus chamado Asafe. Asafe ao ver a prosperidade dos ímpios entra em crise, uma grande e grave crise. Ele contempla esta realidade que aos seus olhos saltam como uma injustiça e sua alma se desfaz.


Narração:
O Salmo 73 foi composto por Asafe.
Quem era Asafe? Um judeu, da tribo de Levi, e músico por vocação e deleite. Seus instrumentos preferidos eram: a harpa, o alaúde e o címbalo, todos estes, instrumentos muito antigos. Nas suas apresentações usou com mais freqüência os címbalos sonoros e os címbalos retumbantes, instrumentos de percussão compostos geralmente de dois discos de metal, que têm no centro uma pequena cavidade para aumentar a sonoridade. Foi designado músico e cantor pelos levitas, que tinham sob sua responsabilidade os serviços religiosos de Jerusalém. Participou do magnífico cortejo musical que levou a Arca do Senhor da casa de Obede-Edom para a tenda armada pelo rei Davi. Naquele dia o rei o descobriu e fez dele ministro de música. Porque também era músico — exímio tocador de harpa e profícuo compositor de salmos —, Davi deu grande ênfase à música de adoração, como expressão de louvor a Deus. Ele fazia questão de que se levantasse a voz com alegria e reservava a si a supervisão geral de toda atividade litúrgica.

Eram 4 mil os levitas, que, em 24 turnos, louvavam continuamente o Senhor com instrumentos fabricados por ordem do rei para esse fim. A maior parte era formada de iniciantes, que aprendiam música com os mais competentes. Era uma verdadeira escola de música sacra. Seus filhos faziam parte do corpo docente — 288 mestres ao todo. Os filhos de Asafe escreveram doze dos 150 salmos que estão na Bíblia. -



1.MINHA CONVICÇÃO INABALÁVEL: A BONDADE DE DEUS

Este Salmo73 se abre afirmando a bondade de Deus.
O v. 1 como que antecipa aquilo que será dito na conclusão do salmo, no v. 28. Alguns teólogos radicalizam ainda mais essa perspectiva ao afirmarem que não se trata apenas de uma antecipação de conteúdo final, mas de uma “[...] superação das tensões e tentações descritas no salmo”.

Para Asafe, Deus é bom!
Alguém tem dúvida da bondade de Deus ?
Na Teologia, a Bondade de Deus é um dos seus atributos. A melhor definição diz: “É a perfeição de Deus que O leva a tratar benévola e generosamente todas as Suas criaturas”. A bondade de Deus resume o caráter de seu grande amor, de sua infinita graça e de sua incomensurável compaixão e paciência em relação ao pecador. Se não fosse pela aplicabilidade deste importante atributo de Deus, o mundo já não existiria mais. Se não fosse pela bondade de Deus, a vida seria impossível de ser vivida.
As Escrituras estão repletas de informações nesta direção:
- Salmo 25.8 – “Bom e reto é o Senhor”...
- Salmo 34.8 - “Oh provai e vede que o Senhor é bom”...
- Mc 10.18 – “Ninguém é bom, senão um só que é Deus!”
- Salmo 52.1 - "A bondade de Deus permanece continuamente".
- 1 João 1.5 - A "bondade" de Deus tem que ver com a perfeição da Sua natureza: "... Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas”.

Mas a quem se dirige a bondade de Deus? Ora, para os puros de coração, para os homens honrados (läyyär’el). Estes, de fato, são aqueles que procedem bem em sua vida. Contudo, estamos diante de “[...] um aforismo sapiencial que se interessa também pela interioridade do homem, buscando seu bem na relação com Deus” (CARNITI; ALONSO SCHÖKEL, op. cit., p. 966). Isso quer dizer que desde o começo o autor especifica bem a sua tese: Deus é bom, mas somente o pode assim experimentá-lo quem pratica a justiça e vive na sua presença (v. 28).



2. A CONTRADITORIEDADE DA VIDA: AS INJUSTIÇAS

Se de um lado o salmista estava convicto da bondade de Deus, por outro lado, ao contemplar mais acuradamente as situações da vida, ele percebe que nem sempre são os bons e os limpos de coração que prosperam. O ímpio, o desonesto, o contumaz no pecado e o perverso são vistos por ele como quem também prospera em seu caminho.

E isso produz uma indignação em sua alma. Ele não aceita mais cantar a bondade de Deus em meio a prosperidade dos perversos. Ele passa a ser solapado por pensamentos que questionam a veracidade de sua fé.

Ele não desconhece a realidade dramática da injustiça. A afirmação de que Deus é bom para os justos não pode ser empiricamente confirmada. O salmo se reveste de um tom altamente expressivo, concreto. Não faz afirmações abstratas, mas diz aquilo que se pode observar com os olhos, cheirar com o nariz, escutar com os ouvidos, saborear com o paladar e sentir com o tato.

Desde o v. 2 ele afirma que seus pés por um pouco não tropeçaram, por um nada seus passos não vacilaram. E eles quase vacilaram por conta da contemplação das injustiças entre os justos e os ímpios.

E de quem fala o justo nos vv. 2-12? Deles, dos ímpios. O uso da terceira pessoa do plural será uma marca nesta primeira seção da primeira parte do salmo. Como são descritos os ímpios ?
- Eles são corpulentos, têm um corpo sadio (v. 4), jamais parecem atormentados (v. 5b), como se a fadiga condenada por Deus a Adão e à sua geração (aos mortais, v. 5a), após o pecado no paraíso, não os atingisse. Logo a eles que se vestem de violência (6b) e cujo colar ao pescoço se lhes forma em virtude da soberba (6a)! Desoladora imagem, os genitores do pecado não conhecem sofrimento. A partir do v. 7, vemos se avolumar a perversidade desses ímpios que é pintada em traços fortes. Eles se põem numa alta posição, vendo a todos de cima, soberanamente (v. 8b). Chegam ao cúmulo de alçar aos céus sua boca (v. 9a). Não apenas aos justos ferem com sua voz maliciosa (v. 8a), mas também a Deus que fez os céus a terra e a quem não reconhecem (v. 11). Assim, pois, são caracterizados os ímpios (v. 12), levando o salmista à pergunta: e Eu, como me encontro diante dessa realidade tão pujante?

Davi no Salmo 42 declarava: “Porque estás abatida ò minha alma ?” O salmista no Salmo 77 chegava a questionar se Deus se esquecera de sua bondade ? Cadudado em suas promessas ?

Quantas vezes nos deparamos com situações que não conseguimos explicar e entramos em crise ? A lição que deste salmo inicialmente extraímos, pode ser dividida em dois fatores:
- não devemos nos desesperar quando porventura nos vemos assolados por esses tipos de sentimentos em relação a justiça e a bondade de Deus
- A outra lição, é que devemos ser mais amorosos e compreensivos para com aqueles que estão atravessando esta crise em suas vidas!



3. A CRISE INTERNALIZADA NA ALMA

Desde o v. 2 ele afirma que seus pés por um pouco não tropeçaram, por um nada seus passos não vacilaram. De fato, este “por um pouco” deixa claro, uma vez mais no início do texto, que quem está falando não caiu. Previamente se sabe que a palavra final do salmo será de confiança apesar das adversidades. Mas isso em nada tira o impacto que experimenta uma pessoa que se encontrava à beira do abismo, quando tomada pela mão direita (v. 23b) e arrebatada do precipício (v. 24b).

Mesmo tendo sido salvo, o salmista experimentou na pele o que é o medo e o pavor. Mais ainda, o fato de ter sido salvo não quer dizer que ele não possa sucumbir uma vez mais ao mesmo risco. Ora, o sentimento de inveja despertado pelos olhos que vêem o ímpio vivendo em paz e prosperidade – shalom (v. 3) – e sem sofrimento algum (v. 4a), pode uma vez mais retornar. Particularmente em nosso caso, torna-se mais evidente porque consideramos o salmo fazendo parte do gênero sapiencial de meditação pessoal, pois aquele que fala, não é o mestre, mas o aprendiz da bondade de Deus na contraditoriedade da vida humana.

A resposta é dada na segunda seção (vv. 13-17) da primeira parte do salmo. A partir de agora o autor vai se voltar sobre si mesmo, predominando o uso da primeira pessoa do singular. A conclusão do salmista não poderia ser mais negativa: “Com efeito, em vão mantive puro o coração e, na inocência, lavei as minhas mãos” (v. 13). Ora, para um contexto em que se esperava, da parte de Deus, uma justa retribuição às boas ações dos justos e às más ações dos ímpios, a constatação empírica da primeira seção se revela como escandalosa. A experiência mostrou que a doutrina da retribuição era vã, pois como pode o justo ser atormentado o dia inteiro (v. 14a) quando o injusto não o é (v. 5b)?

Asafe declara algo abissal: “Eu invejava os arrogantes, ao ver a prosperidade dos perversos” (v. 3). O problema revelado no texto é que as injustiças gestaram uma crise. A prosperidade dos perversos trouxe inveja ao coração do Salmista.

Inveja é um dos sete pecados capitais – A inveja é considerada um pecado frio, pois gera maior dano a quem o vivencia do que ao semelhante. Se o orgulhoso olha para baixo e despreza com inferioridade os outros, o invejoso olha para cima e chora com amargura a prosperidade do semelhante...

Tomás de Aquino disse que inveja é o desgosto pelo bem alheio. Ambrose Bierce afirmou que inveja é uma sensação agradável proveniente da contemplação da miséria do outro.

Uma parábola sobre a inveja         
Disse o rei a um invejoso e um ganancioso: “um de vocês pode me pedir algo e eu lho concederei, e cuidarei para que o outro ganhe duas vezes mais”.

Isso deixou os dois homens e um dilema. O invejo não sis ser o primeiro a pedir, pois inveja seu companheiro que receberia porção dobrada. Mas o ganancioso também não quis ser o primeiro, pois queria ter tudo, tudo que alguém pudesse eventualmente receber.      

Por fim, o ganancioso persuadiu o invejo a ser o primeiro a fazer o pedido. Então o invejoso pediu ao rei que arrancassem um de seus olhos, sabendo que, dessa maneira, seu companheiro teria os dois olhos arrancados.

Diante de tudo o que pôde ver dos injustos, e da maledicência que de suas bocas ouviu, surge-lhe, então, uma viva tentação: falar como eles (v. 15a). Pensa em desistir do caminho trilhado por toda uma vida, como se tivesse colocado suas esperanças numa ilusão (v. 20). Neste momento, o salmista faz a mesma experiência de Malaquias: “Não vale a pena servir a Deus: que proveito temos em guardar seus mandamentos? [...]” (3,14). Há aqui, contudo, uma diferença crucial. Somente quando vislumbra algo para além de seu próprio “eu”, uma esperança começa a cintilar: “Se eu dissesse: „Falarei como eles‟, eis que já trairia a geração de teus filhos” (v. 15).



4. TRATANDO DAS CRISES DA ALMA

Nesta passagem, o justo começa a perceber uma realidade que tem valor em si mesma. Apraz-lhe continuar o seu caminho porque o pertencer à geração dos filhos de Deus passa a constituir uma realidade em que o salmista sente consolação e retribuição. Mas o problema ainda não se resolve. A experiência do v. 15 não é suficiente para afirmar a bondade de Deus uma vez que ela em nada muda a dura realidade anteriormente constatada da injustiça. Desse modo, o salmista irá em busca de encontrar alguma razão; quer compreender (v. 16a), mas tudo permanece obscuro, nada conseguindo ver (v. 16b).

Então, uma experiência inesperada acontece: “Até que entrei no santuário de Deus, e compreendi o destino deles” (v. 17). Nesse sentido, o que não conseguira por seu próprio esforço, conseguiu gratuitamente ao entrar no santuário. Sob este aspecto, Rivasi afirma abertamente: “A crise e o escândalo são dissipados através de uma experiência religiosa que se torna luz fulgurante dando força para se continuar o itinerário da vida”, e ainda: “[...] o ingresso no templo e na graça renovou o compreender, isto é, a consciência, a vida brilhante do ímpio, inicialmente examinada com ódio, se revela na sua verdade [...] anulando a segurança do orgulho e do egoísmo humano e desvelando toda fragilidade”.

Vejamos o que Asafe discerniu ao deparar-se com uma visitação de Deus no templo:
a. Ele entendeu a soberania de Deus... (v.18-19).
b. Ele compreendeu que a verdadeira riqueza e prosperidade não é a material e nem a dos soberbos... mas os que tem em Deus sua herança (v.25-26)
c. Ele entendeu que a infidelidade provoca o maior de todos os males – o afastamento de Deus (v.27)

Ah queridos!
O maior dos feitos de Deus é manter-nos de pé e salvos.

Para o bispo de Hipona, o que está em jogo no salmo 73 é o bem verdadeiro prometido por Deus à humanidade que não se resume em coisas temporais que logo perecem, mas no bem maior que é Ele mesmo, a vida eterna em Deus. Juntamente com Agostinho, muitos outros encontrarão nas expressões“me arrebatas” (v. 26b), “que tenho nos céus [senão a ti]?” (v.25a), “a minha porção é Deus para sempre [para a eternidade]” (v. 26 b) uma prefiguração escatológica cristã.

Encontramo-nos diante da explosão de um coração traspassado por uma palavra de vida, de esperança, de retomada da aliança... uma palavra que se faz ao dizer porque provém daquele que é fiel, aquele que, no seu amém, permanece firme como a rocha (v. 26b). Palavra que, ao se manifestar, devolve a esperança, tornando-se outra vez palavra na boca daquele que decide “contar todas as suas obras” (28c).

Mas, atenção! O salmista somente chegou aqui porque sofreu, porque foi capaz de manter firme sua fé quando já a tinha dado por perdida. Ele não fugiu da dor da confusão e mesmo da humilhação que os ímpios lhe provocaram. Teve de mergulhar na noite escura da incerteza para chegar à luz radiosa experimentada no templo de Deus.


Ilustração final:

O AMOR FAZ A DIFERENÇA

Conta-se a história de uma águia gigantesca, nas montanhas da Escócia. Certo dia baixou ela a um quintal onde se achava uma criancinha num berço. Tomou o pequenino infante e subiu, subiu, subiu, até que afinal depositou o pobrezinho à borda de um rochedo. A mãe estava como louca. Toda a vila ficou horrorizada. E dirigiram-se para o pé do rochedo, discutindo ali a maneira de poder alcançar a criança.
Um musculoso marinheiro declarou: "Hei de apanhá-la." E pôs-se a subir pelo rochedo. Mal começou, porém, teve de voltar atrás. Então um rústico montanhês, acostumado a escalar montanhas, disse: "Eu a trarei." E subiu, subiu, mas eis que não pôde avançar mais, e voltou.
Aproximou-se então uma pobre camponesa que, vencendo toda resistência de todos, empreendeu a grande ascensão, subiu, subiu, mais, mais, até que chegou afinal ao pé da criança, descendo então pouco a pouco, chegando a salvo.
Por que será que o marinheiro e o montanhês não haviam sido capazes de alcançar a criança, ao passo que uma simples camponesa pôde fazê-lo? Ah! é que aquela mulher era a mãe da criança! O amor nos move além.


Conclusão:

O deserto da vida, como nos mostra o Salmo 73, é uma experiência de marcha, de seguir adiante, mas jamais sozinhos. Sinal de salvação é o povo, é a geração dos filhos de Deus que o salmista não consegue abandonar (v. 15); sua realização, não obstante, está em Deus.